Promiscuidades…

promiscuidadesA 4 de Julho de 2007, o labrego que então presidia à Cabo Verde Investimentos foi à RTC, em horário nobre, afirmar, alto e bom som, que «os arquitectos caboverdeanos servem apenas para fazer casinhas de pobre».

Muitos devem estar lembrados da nossa enorme indignação e eu, a 6 de Julho, enquanto Presidente da Ordem dos Arquitectos Caboverdeanos (OAC) e em nome de todos os arquitectos, pedi a sua demissão imediata ao então Ministro da Economia, Eng. José Brito, informando-o de que todos os entendimentos que havíamos conseguido, dois meses antes, para a viabilização do Cesária Resort estavam já suspensos até que tal demissão acontecesse.

O Ministro resolveu então convidar a OAC a ir ao seu Ministério conversar com ele e, tentando pôr água na fervura, pediu-nos que perdoássemos a afronta.

Fui peremptório: Nem pensar! Não nos contentaríamos nunca com menos do que a demissão imediata do labrego miserável, pois sendo ele o responsável pela atracção do investimento externo, o homem que fazia os investidores correr (ainda por cima ganhando largas centenas de contos de salário do erário público), a afronta não fora feita apenas aos arquitectos, mas também aos engenheiros (pois estes trabalham sobre os projectos que os arquitectos fazem) e, sobretudo, ao cidadão caboverdeano, em geral, pois este faz a casa que pode e, para ele, a sua “casinha de pobre”, feita com o suor do seu rosto e com dinheiro honestamente ganho, equivalerá sempre a mansão.

E lhe disse mais: Era justamente para não vermos mais tarde outros miseráveis na RTC, em horário nobre, a insultar-nos, que estavámos a exigir no nosso novo Estatuto (então a aguardar a aprovação do Governo) as parcerias obrigatórias entre o arquitecto estrangeiro e o arquitecto local, como a mais segura e efectiva via de transferência de know how, pois exercendo nós a profissão num arquipélago periférico e pobre, o fosso tecnológico entre nós e os estrangeiros tenderia sempre a aumentar e somente com a implementação de tais parcerias é que os técnicos da indústria da construção nacional teriam condições de, eventalmente, poder competir com os estrangeiros.

Todos sabem que o Governo recusou demitir o labrego e que este foi deixado a gozar com a nossa cara por mais seis meses e, mesmo quando saiu, foi largamente louvado como “gestor de sucesso” que havia conseguido arrecadar muito dinheiro para o país com a venda dos terrenos das ZDTIs.

Infelizmente, em retrospectiva, sou obrigado a concluir que o insulto que o labrego nos fez era apenas o cumprimento de uma ordem superior. Foi o anúncio público do arranque da estratégia de destruição da classe dos arquitectos caboverdeanos pelo Governo, como mais tarde se veio a confirmar com os compromissos que foram negociados com a Organização Mundial do Comércio (OMC). Hoje, oito anos depois, os arquitectos e engenheiros caboverdeanos estão a morrer à míngua, enquanto que volta e meia, vão sendo anunciados hotéis e resorts luxuosos, cujos projectos são elaborados por estrangeiros que, à luz dos compromissos traiçoeiramente assinados com a OMC, nem sequer são obrigados a se inscrever na OAC! De parcerias obrigatórias, então...

Porém, quem é que aparece hoje, com a maior cara-de-pau, como testa-de-ferro dos mesmos investidores que ele outrora fazia correr?

Nada mais nada menos que o labrego miserável! E eis que com a mesma arrogância e sobranceria de sempre tem vindo a encher a paciência dos caboverdeanos, defendendo o indefensável: A construção de dois molhes semiconvergentes na baía do Algodoeiro, alegadamente para a melhoria das condições balneares do MELIA LLANA BEACH HOTEL, mas que no fundo não passam de uma tentativa disfarçada de construção de uma marina.

Que nenhum cidadão caboverdeano e, sobretudo, salense, se deixe enganar: Analisados de forma rigorosa e independente, os impactes do projecto na hidrodinâmica e na dinâmica da areia do mar são negativos e muito significativos, pelo menos por três razões:
1. A estrutura vai promover a interrupção do transporte litoral de sentido norte-sul, conduzindo à erosão das praias que lhe ficarão a sul.
2. A estrutura vai induzir o desenvolvimento de correntes de contorno e correntes de fuga, as quais vão promover a erosão de sectores da praia a norte, bem como da própria praia artificial a criar na bacia abrigada pelos molhes.
3. Tais correntes de contorno e correntes de fuga põem em causa a segurança e integridade dos banhistas, que passam a correr graves riscos de afogamento, contrariando assim o objectivo principal do projecto, que é a melhoria das condições de uso balnear.

O mais grave, quanto a mim, é que ninguém sabe que tipo de laços existiram entre o labrego e os seus actuais senhores antes, durante e depois de ele exercer o cargo de Presidente da Cabo Verde Investimentos!

Cabo Verde não precisa de cidadãos tão desprovidos de escrúpulos como este que, por dinheiro, está sempre disponível para fazer os serviços mais sujos, como o insulto gratuito que fez aos arquitectos e ao povo caboverdeano em 2007. Que fique claro que em qualquer parte do mundo civilizado ele seria impedido de trabalhar, por pelo menos 10 anos, na promoção da indústria turística nacional, depois de a ter tutelado. É a nossa apatia colectiva e tolerância muda perante estas promiscuidades que estão a destruir os nossos jovens, tornando-os mais cínicos e insensíveis aos valores que precisam cultivar e desenvolver para poderem, no futuro, cuidar como deve ser do país que vão herdar desta geração.

Entendo que a Procuradoria da Comarca do Sal há muito tempo já devia ter chamado este miserável labrego para, no mínimo, esclarecer a longevidade e a natureza dos vínculos que o unem aos seus actuais patrões.

Nenhum magistrado deste país devia estar a assistir a este triste espectáculo e a assobiar para o lado!

©2018 - http://nanindipala.net - Cipriano Fernandes

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