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trap-300x185Nem se aceita, tão-pouco, que os dirigentes do NOSI a dado trecho tenham apresentado o relacionamento com a Micro$oft como sendo tão especial que o nosso país desfrutava de um preço muito baixo, preferencial mesmo, para usar o seu software (há alguns anos atrás, cada licença do Windows 7 custava o equivalente a quatrocentos escudos ECV, salvo erro, um preço considerado muito baixo e isto era claramente apontado como motivo para não se investir no FOSS em Cabo Verde). Dá a ideia de que esses responsáveis, coitadinhos, não sabiam que estavam a morder um isco...

Não creio que seja possível que esses responsáveis das TIC em Cabo Verde não tenham acompanhado as confrontações mediáticas entre a União Europeia e as multinacionais de software americanas (com a Micro$oft na linha da frente) na última década e as opções conscientes da Alemanha, Holanda, França, por exemplo, em desenvolver as suas próprias soluções sobretudo para os serviços de armazenamento e gestão de informações e dados críticos do Estado, que nunca conviria que caíssem em mãos estrangeiras. E isto muito antes das revelações de Edward Snowden.

Igualmente, não acredito que esses nossos dirigentes não conheçam as tácticas para conquistar o mercado que essas multinacionais da informática sempre usaram, com os tribunais de vários países muitas vezes a condená-las por práticas contrárias ao correcto funcionamento dos mercados. Enfim...

Pelo que, para mim, tudo isto se resume a patriotismo e seriedade.

Em 2003, o Presidente Lula da Silva concordou em organizar, na sua residência oficial da Granja do Torto, o 1º Forum Internacional de Software Livre. Nesse encontro ele ficou literalmente desorientado, na terra de ninguém, bombardeado pelos que defendiam a adopção do FOSS por parte do Governo e os outros que defendiam a manutenção da dependência do software proprietário. Nessa altura, mesmo com toda a pirataria, o Brasil pagava anualmente cerca de dois bilhões de dólares americanos de licenças para usar o software proprietário. E, mesmo sem perceber muito da questão, o Presidente Lula decidiu pelo software livre no Brasil porque, segundo disse mais tarde, era impossível que toda aquela gente tão inteligente, que insistia no FOSS, estivesse errada. Eram, disse, demasiados jovens muito inteligentes juntos, que certamente sabiam muito bem o que estavam a defender...

Em 2010, numa outra edição desse Fórum ele, invocando o encontro de sete anos antes, declarou o seguinte:

«Agora que o prato está feito, é muito fácil comê-lo. Mas preparar este prato não foi brincadeira. Eu lembro da primeira reunião que fizemos, na Granja do Torto, em que eu não entendia absolutamente nada da linguagem em que este pessoal discutia. E houve uma tensão imensa entre aqueles que defendiam a adopção no Brasil do software livre e aqueles que achavam que nós devíamos fazer a mesmice de sempre, ficar do mesmo jeito, comprando e pagando pela inteligência dos outros. E graças a Deus prevaleceu, no nosso país a questão e a decisão pelo software livre. Porque nós tínhamos que escolher: Ou nós íamos para a cozinha preparar o prato que iríamos comer, com os temperos que nós queríamos colocar e dar um gosto brasileiro na comida, ou nós iríamos comer aquilo que a Microsoft queria vender para a gente. E prevaleceu, simplesmente, a ideia da liberdade.»

Agora, quo vadis, NOSI? Qual é o plano B? Ou será que esta é uma fatalidade da qual não nos livraremos para sempre? Faz isto parte da famosa agenda de transformação de Cabo Verde?

O que o Jornal “A Voz” não refere na sua peça é o facto de que Cabo Verde não depende somente da Micro$oft e não será somente esta empresa a enviar facturas. Nomeadamente, no novel Instituto Nacional da Gestão do Território (INGT) cedo vão começar a entrar as facturas das empresas de software proprietário (Oracle, ESRI e outras...) em que o sistema está assente.

O Acordo de Adesão à OMC (cuja negociação em 2007 afirmei então e repito hoje, foi um crime de lesa-Pátria) continua, aos poucos, a fechar a sua tenaz sobre a economia deste país e parece-me que temos que ser capazes de encontrar alternativas para sobreviver e tenho para mim que não depender do software proprietário para áreas críticas da governação do país é uma delas. Se é verdade que no curto e médio prazos não nos vamos livrar do pagamento das licenças às multinacionais de software proprietário, é fundamental que se discuta este problema com seriedade, transparência e franqueza e não se tente esconder debaixo do tapete esta questão estratégica vital para os países e povos num mundo em que a recolha, a gestão e a manipulação da Informação se tornou, sem dúvida, a chave do domínio económico e político dos países poderosos sobre os mais fracos.

E, mesmo sem termos a veleidade de que poderemos iludir a famosa surveillance que todos os países (sobretudo os mais poderosos) fazem uns sobre os outros e sobre o mundo todo, o facto é que pelas suas próprias características e pela filosofia que lhe está subjacente, o FOSS é a única via que um país frágil como Cabo Verde têm para permitir aos seus jovens o desenvolvimento de competências fundamentais que os poderão distinguir no futuro, por um lado, e assegurar a segurança e o tratamento da informação crítica da Nação, por outro: “Os programadores de amanhã serão os magos do futuro”.

No fundo, parafraseando o Presidente Lula da Silva, trata-se de irmos à cozinha preparar nós mesmos a nossa comida, com os temperos de que precisamos e com um gostinho caboverdeano, ou resignadamente comer aquilo que a Micro$oft e outros querem que comamos, ao preço que nos quiserem impor, como já é evidente. É muito tarde, mas não demasiado tarde para começar.

(Para os que quiserem ver o discurso completo do Presidente Lula no FISL 2010, sigam este link do YouTube)

©2018 - https://nanindipala.net - Cipriano Fernandes

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