amilcar_cabral_qod.jpg.CROP.rtstory-largeAmílcar Cabral foi a coisa mais bonita que aconteceu a Cabo Verde. A independência, seu legado, foi a coisa mais importante que aconteceu a esta Nação.

Tão consensuais quanto estes dois factos possam ser, não existe unanimidade à sua volta, como em tudo na vida (e ainda bem).

O recente brouhaha à volta do tratamento menos digno que a CMP estaria, no entender de muitos, a dar ao memorial a Amílcar Cabral é, quanto a mim, inusitado e despropositado.

Que uma Câmara Municipal do MpD não demonstre a mínima sensibilidade para com um memorial a Amílcar Cabral ao ponto de levantar diante dele uma estrutura que, entre outras coisas, dificulta sobremaneira a própria visibilidade do mesmo, é absolutamente normal e coerente com o discurso e a prática desse partido. Somente os desatentos esperariam outro comportamento...

Que a proeminência de Cabral no imaginário colectivo do povo caboverdeano sempre irritou o MpD é um facto que ficou patente logo na sanha da mudança dos símbolos nacionais depois da abertura ao multipartidarismo.

Porque se o hino nacional da Guiné-Bissau e de Cabo Verde era o mesmo (e de continuidade dificilmente defensável já logo após o golpe de 14 de Novembro de 1980), já as bandeiras e as armas das duas Repúblicas NUNCA foram iguais. Embora bebendo da mesma bandeira que o próprio Cabral havia definido para o PAIGC, ninguém minimamente sério pode defender que alguma vez elas tenham sido iguais. No entanto, foi esse o argumento apresentado para a mudança forçada que ocorreu.

Aliás, sintomaticamente, e revelador do carácter dos novos senhores do poder em 1991, toda a conversa para a mudança dos símbolos da República somente começou depois que as eleições de 1991 foram ganhas com maioria qualificada. Antes dessas eleições ninguém se atrevera a colocar tal mudança abertamente na agenda.

De modo que a mudança da bandeira e das armas, escudada por essa maioria qualificada inesperada foi, essencialmente, um acto cobarde.

Depois, veio a retirada sistemática da efígie de Amílcar das notas do Banco de Cabo Verde. Todas as notas (de 100, 200, 500, 1000 e 2500 escudos) emitidas pelo BCV tanto em 1977 como em 1989 tinham efígies de Amílcar Cabral.

Depois aconteceu o maior insulto à memória de Amílcar, que foi a rejeição, pelo Governo do MpD do projecto do seu Memorial, concebido e oferecido a Cabo Verde, DE GRAÇA, por Oscar Niemeyer. Como foi possível que tenha acontecido, impunemente até hoje, esta abominável afronta de Cabo Verde ao Brasil? O projecto pura e simplesmente desapareceu assim que chegou a Cabo Verde, pelos idos de 1993...

Tudo isto é absolutamente compatível com a estratégia delineada e executada pelo MpD.

Quanto a mim, quem de facto tem desonrado, sobremaneira, a memória de Amílcar Cabral e toda a nobre luta de libertação nacional contra o colonialismo português, é o PAICV.

Esse partido tem demonstrado claramente um complexo inexplicável em relação à sua história recente e, na sua ânsia para evitar ser colado aos excessos, erros e abusos gravíssimos da 1ª República, tem esquecido que lhe cabe a maior quota de responsabilidade pela defesa da história recente da Nação, sobretudo a luta de libertação nacional.

Esperar-se-ia, pois, do PAICV, quando voltou ao poder, uma postura diferente e claramente oposta ao trabalho de sapa feito pelo MpD durante os dez anos que governou o país.

Infelizmente, não foi isso que aconteceu.

Se não valia a pena tentar reverter a mudança da bandeira nacional e das armas da República, o facto é que o registo final do PAICV depois de 14 anos de poder é muito infeliz, pois não fez mais do que cimentar a tentativa do MpD de reescrever a história. Dois exemplos:

  1. A efígie de Amílcar Cabral continua arredada das notas do Banco de Cabo Verde. Sob governos do PAICV o BCV já procedeu à emissão de novas notas em 2005, 2007 e em 2014, e em nenhuma dessas vezes de lembrou de recuperar a efígie de Amílcar Cabral. Se não se justificaria a colocação dessa efígie em TODAS as notas, como acontecia na 1ª República, nada justifica este banimento total, implementado pelo MpD e confirmado pelo PAICV.
  2. O Governo de Cabo Verde, sob a batuta do PAICV desde 2001, não fez o mais pequeno esforço para restabelecer a honra e a imagem do país perante Oscar Niemeyer que, até à morte, continuou com a mão estendida a oferecer o projecto de um memorial a sério para o seu amigo Amílcar Cabral.

Convém deixar claro que a estátua do actual memorial a Amílcar Cabral é um caso típico do cavalo dado ao qual se devia ter olhado os dentes. Senão para ser rejeitado, pelo menos para ser profundamente alterado de modo a fazer justiça ao homenageado. Mário Soares, aliás, o disse claramente quando visitou o monumento: Aquilo não passa do corpo (com as pesadas vestimentas de inverno) do Mao Tse-Tung, com a cabeça de Amílcar Cabral.

Ora, Cabral merece muito melhor.

Assim, justamente na altura em que a urbanização do Djeu voltou a estar na ordem do dia, entendo ser a altura de considerarmos, com seriedade, a proposta há muitos anos feita por Osvaldo Lopes da Silva, se não estou em erro, para a construção desse Memorial no Ilhéu de Santa Maria recuperando, com a ajuda do Governo brasileiro, o projecto de Niemeyer.

E isto por três razões principais:

  1. Nenhum local da cidade tem a proeminência que tem o Djeu para um monumento dessa natureza. A cidade, aliás, sequer tem outros locais alternativos com essa nobreza.
  2. O actual local, Taiti, é terreno alagável. No dia em que chover a sério na capital, aquilo ficará coberto por pelo menos 50cm de água, durante meses.
  3. O próprio PDM aprovado pela Assembleia Municipal da Praia em Setembro último, que o Governo e a CMP insistem em ratificar violando tudo quanto é lei e decência, prevê uma faixa aedificandi de 25m de profundidade no Taiti tanto do lado da Av. Cidade de Lisboa como do lado da Ponta Belém. Ou seja, tanto o MpD como o PAICV já condenaram, no seu PDM, a viabilidade do actual memorial a Amílcar Cabral, pois este irá ficar atrás de edifícios com dezenas de metros de altura!

Há pois muita hipocrisia e cinismo desses dois partidos em relação à memória de Amílcar Cabral.

Do MpD não se poderia esperar outra coisa.

Agora, do PAICV o comportamento tem sido, pura e simplesmente, lamentável...

©2018 - https://nanindipala.net - Cipriano Fernandes

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