Hurricane Season – III

When you find yourself in a hole, stop digging!

Todos os anos, entre 1 de Junho e 30 de Novembro, a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) monitoriza com muito cuidado o Atlântico Norte para detectar zonas de instabilidade que eventualmente possam ser o ponto de nascença de furacões poderosos que, nascendo nas águas quentes ao redor do nosso arquipélago, podem atingir o território dos Estados Unidos, muitas vezes com impactos desastrosos em termos materiais e, por vezes, humanos. Este período de seis meses é conhecido como a estação dos furacões nos EUA.

E, por mais que o cidadão americano médio não conheça, nem queira conhecer, patavina acerca da geografia do mundo (abundam anedotas sobre este tema), Cabo Verde é, seguramente, um dos países que mais conhece e é capaz de localizar com exactidão num mapa-mundi, justamente porque aprendeu, à força de tanto ver previsões meteorológicas nas televisões neste período do ano, a caracterizar o nosso país como um hurricane incubator. E tem razões de sobra para tal.

Este é o meu terceiro (os dois primeiros estão disponíveis no meu blog em https://nanindipala.net) documento com este título, que tenho revisitado todos os anos, na (aparentemente vã) tentativa de chamar a atenção dos dirigentes deste país (tanto ao nível do Governo central como ao nível da Câmara Municipal da Praia) para a tragédia que mais dia menos dia cairá dramaticamente sobre as nossas cabeças quando um desses furacões se desviar um poucochinho para norte da sua rota costumeira (a maioria deles passa a poucas dezenas de quilómetros ao sul das nossas ilhas do Sotavento) e desabar sobre a cidade capital do país.

Tenho dito e repetido que a nossa cidade capital é uma grande desgraça à espreita no dia em que isso acontecer, porque as cheias repentinas (flash floods) resultantes fariam estragos insuportáveis.

Certamente acontecerá, somente ninguém sabe quando. Por ora, vamos gozando da protecção de Jesus Cristo que, na Sua infinita bondade, tem poupado as nossas gentes de tal catástrofe, ano após ano.

ENTRETANTO, PODE MUITO BEM SER ESTE O ANO…

Por isso, volto a insistir no facto de que mais um ano se passou sem que fossem executadas obras importantes de manutenção e remodelação dos canais de recolha de águas pluviais em pontos nevrálgicos da cidade da Praia:

  1. Os muros de correcção torrencial construídos nos primeiros cinco anos da independência continuam cada vez mais degradados e nalguns pontos estão já completamente soterrados. Cada dia que passa vamos consolidando uma falsa segurança de que cumprirão eficazmente a sua função quando chover a sério…

  2. A vala de recolha de águas pluviais que vai do Palácio do Governo até à ponte velha da Vila Nova continua repleta de lixo e completamente inoperacional.

Volto a repetir que tal vala carece hoje de um grande e muito dispendioso redimensionamento porque toda a parte ocidental da cidade que tem por objectivo cobrir (Achadinhas, Eugénio Lima, Bairro Craveiro Lopes, Fazenda, Sucupira e Taiti) beneficiou de obras significativas de arruamentos e asfaltamentos que aumentaram sobremaneira a taxa da impermeabilização desses bairros, o que necessariamente significa um muito maior caudal de águas superficiais quando chover. O correcto seria fazer o redimensionamento dessa vala antes dessas muito necessárias e úteis obras de beneficiação urbanística, porque sem tal redimensionamento, as obras que já se fizeram correm o risco de ser, não só mera cosmética, como um factor de agravamento do problema. E, provavelmente, fazendo-se o trabalho prévio de calcular o novo volume de águas pluviais que certamente resultaria desses arruamentos e asfaltamentos, certamente nos depararíamos com a necessidade imperiosa de criar outra(s) vala(s) noutras localizações, uma vez que os constrangimentos da vala existente podem inviabilizar de todo o seu redimensionamento adequado, devido a tantas construções consolidadas ao seu lado e à proximidade da Avenida Cidade de Lisboa.

Mas compreendo que o que importa seja ganhar votos…

Porém, o que é de todo incompreensível (e mesmo temerário) é a vala existente não ter sido, nos últimos três anos, sequer limpa das toneladas de lixo que estão à vista de todos nós…

  1. Ainda a CMP e a Direcção Geral do Ambiente mantêm o lote clandestino potencialmente criminoso que criaram dentro do vale da ribeira de Lém-Ferreira. Será que estão a fazer um teste para ver se nada acontece caso voltem a cair uns pouquíssimos milímetros de precipitação (como vem acontecendo há décadas) para depois virem dizer que o lote não afecta nada e que a construção que querem erigir aí deve seguir em frente? Volto a insistir em que esse lote não só não devia ter ser criado, como os muros que foram erigidos para o proteger põem em causa a segurança de grande parte do bairro de Lém-Ferreira (que, paradoxalmente, é o bairro de origem do actual Presidente da CMP…) e que por isso já deviam ter sido completamente removidos. Não podemos continuar a ser tão tolos e tão irresponsáveis para continuarmos a tolerar o atravancamento, dessa maneira, da parte final da confluência de 3 ribeiras tão marcantes como as que desembocam à frente da ponte de Lém-Ferreira!

Entretanto, vamos nos enganando a nós mesmos com fábulas, como ouvi recentemente na RCV um ex-presidente da CMP a elogiar a obra que foi feita pela CMP na zona de Fonton, pintando-a como uma das maiores intervenções de requalificação do mundo, com direito a prémios e louvores internacionais.

O facto é que aquela obra foi a obra possível, depois de várias décadas de gestão urbanística deficiente (senão incompetente ou irresponsável) que foi permitindo que as pessoas ocupassem irremediavelmente o leito de uma ribeira tão profunda e antiga, com tão grande bacia hidrográfica.

Não devíamos estar a dar a nós mesmos palmadinhas nas costas e vender como sendo uma “grande obra” o esforço possível que foi feito, que não passa de uma fútil tentativa de obrigar o caudal de uma ribeira tão imponente a passar por um canalzinho que nunca terá condições de sequer funcionar quando chover a sério.

Antes, devíamos começar a pensar a sério em resolver o problema da habitação na cidade da Praia, porque se tivesse sido continuado o esforço começado pelos Governos de Pedro Pires, há mais de trinta anos, de dotar o território do Concelho da Praia de planos que criavam solo urbano de qualidade em zonas seguras, nunca as nossas gentes teriam tido necessidade de invadir o leito da ribeira de Fonton e de outras ribeiras semelhantes na capital de Cabo Verde.

Praia, 30 de Junho de 2020

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