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Os recentes factos trazidos pelo Jornal “A Voz” relativamente às ameaças da Micro$oft em fechar todo o sistema de e-government caboverdeano, laboriosamente edificado na última década, não podem ter constituído surpresa para quem tenha acompanhado com cuidado a evolução da situação até hoje.

Agora, com estas ameaças de shutdown, entrámos noutra fase da gestão do nosso sistema de e-government que vai ser cada vez mais cara e mais penosa.

Efectivamente, nada impede a Micro$oft, a partir daqui, de inflacionar de ano para ano o valor das facturas como bem entender, pois sabe que o Estado caboverdeano ficou à sua mercê. Evidentemente, o aumento de parte do valor desses encargos será natural e aceitável devido à obrigatória actualização cíclica do hardware e do software e ao alargamento do sistema a outros serviços da Administração ou para disponibilização de outras aplicações.

O que é inegável é que Cabo Verde está hoje preso na ratoeira da Micro$oft e não tem como sair dela tão cedo, ou incólume.

Há muito tempo que venho expressando a minha preocupação com a aposta consciente e, a meu ver, temerária, que os responsáveis nacionais pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) fizeram no software proprietário para que este se tornasse a base do nosso sistema de governação electrónica.

Se por um lado se compreende a urgência em que determinadas valências do nosso sistema de e-government fossem efectivadas (registos, agilização do processo de criação de empresas, etc.) e tal urgência tivesse imposto o uso de software que os técnicos do NOSI dominassem melhor (software proprietário), já deixa de ser compreensível que não tenha havido qualquer esforço continuado para o estudo e o reforço das competências dos profissionais do NOSI em termos de software livre e de código aberto (Free and Open Source Software - FOSS).

A prudência e o acompanhamento atento da evolução do FOSS em todo o mundo aconselhariam, desde o início do NOSI, à criação de um núcleo interno de estudo aplicado intensivo do FOSS como alternativa ao software proprietário, para que um dia fosse possível ao nosso país fazer a transição que muitos países já conseguiram fazer, liderados pela União Europeia e pelos países do grupo BRICS (Brasil, Rússia, India, China e África do Sul). Infelizmente, isso não foi feito.

Há cerca de seis anos perguntei a um gestor do NOSI a razão dessa opção em desconsiderar o FOSS e ele me respondeu que isso tinha mais a ver com falta de tempo do que com falta de visão estratégica. Para esse gestor, o NOSI estaria mergulhado em tanta coisa que não se podia dar ao luxo de desviar tempo e recursos para a criação de competências internas em FOSS.

Mas se se aceita esta justificativa, não creio que seja justificável a opção consciente que os responsáveis nacionais pelas TIC e da liderança do NOSI em aceitar o papel de “poster boys” da Micro$oft, que alegremente desempenharam, numa estratégia no mínimo discutível, a meu ver, de apresentar Cabo Verde no papel de “poster country”, como o exemplo a ser seguido em África em termos da implementação de sistemas de governação electrónica.

Pelo que, se devemos algum dinheiro à Micro$oft, muito mais dinheiro ela nos deve.

Durante mais de uma década essa multinacional despudoradamente usou o trabalho do NOSI, baseado no seu software, para conquistar o mercado africano.

©2018 - https://nanindipala.net - Cipriano Fernandes

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